#03 O punk amarelo – Parte 1

Marco havia saído de um relacionamento fracassado a pouco tempo. O jovem publicitário paulista passava por aquele período estranho da vida que só quem esteve preso de alguma maneira consegue entender. Quando se começa aos poucos retomar a vida que se deixou para trás, tudo parece ao mesmo tempo familiar mas também desconfortavelmente novo. Maioria dos rostos conhecidos estavam ali, mas também rostos novos de pessoas que agora pareciam conhecer seus amigos mais do que ele. O tempo muda muito mais do que as pessoas gostam de admitir. Marco pensava que sua vida poderia ser retomada sem alterações de onde parou, assim seria mais fácil de seguir em frente. Apesar disso, e talvez fosse por causa seus amigos mais antigos, ele conseguiu se dar bem e começar uma amizade com a maioria daqueles rostos novos, e entre eles estava Barry.

Marco havia saído da faculdade e por acaso encontrou Barry, que havia acabado de sair do trabalho, na Avenida Paulista. O contraste entre os dois era evidente pela forma que se vestiam, enquanto ele que estava na faculdade usava cabeça raspada e um coturno com calça jeans escura e camiseta lisa o amigo vestia roupas sociais com uma camisa xadrez que só mostrava o colarinho por baixo de um suéter preto. Eles caminhavam conversando enquanto desciam em direção a consolação e quando se aproximavam do MASP, Marco perguntou se o amigo tinha maconha para eles fumarem já que estavam perto do vão livre do museu. Barry respondeu que não tinha, mas que se Marco estivesse disposto a ir até o fim da avenida conhecia um lugar tranquilo onde poderiam comprar. Ele concordou e continuaram a descer a avenida enquanto conversavam.

Algumas ruas antes de chegar na consolação eles desceram em direção ao centro da cidade e por mais que conhecesse bem a região Marco não se lembrava de alguma vez ter passado por aquelas ruas e duvidava que qualquer outro frequentador da Paulista, que não soubesse para onde seu amigo o estava levando, já tivesse passado por aquelas ruas também. Era quase impensável que em uma metrópole gigantesca ainda existisse uma rua pacata e arborizada com casas simples como aquela tão próximo de uma região dominada por grandes prédios empresariais e com grande fluxo de pessoas passando diariamente, era como se tivessem atravessado um portal e entrado em um bairro diferente ou uma São Paulo de outro tempo. Já haviam andado por quase a rua inteira quando avistaram um pequeno boteco de bairro que funcionava em um espaço que não cabia muita coisa além das bebidas e do balcão que separava elas e o atendente de duas mesas de plástico, com duas cadeiras cada encostadas na parede, criando um corredor apertado que terminava em duas portas que uma pessoa desavisada pensaria ser os banheiros. Barry disse o bar era o tal lugar onde eles poderiam comprar maconha e entrou na frente e Marco o seguiu de perto até pararem de frente para a porta da direta que era a mais perto do balcão e por isso a mais estreita. Barry bateu na porta com um ritmo que só quem soubesse o que tinha além daquela passagem poderia saber. Uma fresta se abriu e a metade de um rosto apareceu perguntando o que eles queriam, o amigo de Marco respondeu, então a porta se abriu e quando terminaram de passar apressadamente ela foi fechada.

Agora a quela metade de rosto estava completa e acompanhava um corpo baixo e gordo que estava com uma arma velha entre a cintura e o shorts que usava, ele apontou para o fim do corredor que tinha a largura da porta e seguiu Marco e Barry que iam na frente. Quando chegaram onde o homem gordo tinha mostrado, eles entram em uma sala iluminada por luz laranja que vinha de uma única lâmpada no fim da vida pendurada por um fio que percorria o teto sem foro por entre as vigas de madeira até chegar na tomada próxima a única mesa que aquele lugar tinha, onde estavam sentados um homem de meia idade que usava óculos e fazia contas em uma calculadora enquanto anotava seus resultados em um livro caixa. Quando eles estavam entrando, ele fechou o livro, pegou suas coisas e saiu por uma porta de ferro que ficava atrás do homem que continuou sentado na mesa em frente a um pequeno monte de cocaína próximo a um rádio que estavam na mesa. Quando terminou de cheirar a carreira branca que estava em sua frente e olhou para os dois, colocou a mão sobre a arma na cintura e se levantou.

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